O paradigma Guardiola – da Catalunha à Baviera

Depois de uma época sabática a “encontrar” a motivação na Big Apple, Guardiola foi anunciado como o novo treinador do Bayern de Munique, e vai regressar ao ativo a partir de Julho.

Cortejado por muitos, quando se vaticinava que iria assumir a direção técnica de um clube inglês, o colosso alemão anunciou no seu site, um contrato de três épocas, um prazo relativamente alargado para as particularidades do futebol, como é norma nos clubes organizados e com rumo.

Quando olhamos para alguns clubes alemães (Bayer Levekusen, Schalke 04, Borussia Dortmund, Bayern, etc.) nas competições europeias, o nível da Bundesliga, o seu campeonato interno (terceiro no índice da UEFA próximo de La Liga e a Premier League), a evolução e tendência do estilo de jogo implementado nos últimos anos e as assistências nos estádios, dificilmente poderemos dizer que ele escolheu mal.

Muita gente questiona se Pep Guardiola vai recriar o estilo de jogo típico do Barça em Munique. Antes de mais, convém assinalar que o Bayern é um colosso do futebol europeu e está habituado a ganhar (muito). O primeiro desafio que ele terá pela frente será de assegurar títulos. Mas creio que ele não pretenderá apenas ganhar… vai querer fazê-lo com qualidade e ao seu estilo!

Apesar de ser (re)conhecido como uma pessoa de convicções, Pep, que ganhou tudo pelo Barcelona, vai levar as suas ideias, filosofia e conceitos, mas já acho menos crível que imponha um estilo “à Barcelona”. As circunstâncias são outras. Quando questionei Eusébio Sacristán, meu amigo pessoal e treinador do Barça B, confidenciou-me que “Pep é um apaixonado pelo jogo e para ele será um desafio conseguir os mesmos êxitos sem os recursos ideais para o seu jogo, como os que tinha em Barcelona”.

A Baviera é um pouco a Catalunha da Alemanha, mas mesmo assim espera-o um grande choque cultural e a língua vai ser uma enorme barreira. No entanto, Pep Guardiola, notável portador da identidade e orgulho catalães, é um cidadão do mundo.

Fazendo uma breve análise comparativa, no que toca à matriz de jogo, o sistema tático é parecido (4-3-3), ambos bastante ofensivos, com dinâmicas diferentes. O Bayern é uma equipa essencialmente disciplinada, organizada, rigorosa, de bloco defensivo compacto e com elevada capacidade no jogo pelos corredores laterais, onde aumentam muito a sua velocidade e servem o ataque com muitos cruzamentos para a área, enquanto o Barça do seu tempo (ligeiramente diferente do atual) assentava basicamente numa circulação de bola de toque, criteriosa, indireta e criativa em todo o campo e transições defensivas extremamente rápidas e agressivas.

O futebol na Alemanha é um pouco mais físico, embora nas últimas edições da Bundesliga se tenha notado uma evolução qualitativa, aportada por jovens jogadores de recentes gerações, que à eficácia de sempre, acrescentam “pinceladas” de criatividade e refinamento técnico.

Nota-se, que os jogadores no Bayern e o seu perfil não é o mesmo dos catalães (por exemplo, atente-se logo aos guarda-redes, onde Neuer é diferente de Valdés e não terá a mesma capacidade de funcionar como mais um elemento fundamental e ativo na construção do jogo – por isso acrescentaria que o sistema tático no Barça é 1-4-3-3).

No clube catalão o Guardiola estava rodeado de colegas ex-jogadores e tinha total autonomia, no clube bávaro a administração é também ela composta por ex-jogadores, mas bastante omnipresente e interveniente no quotidiano. No Bayern terá de se socorrer apenas do plantel da equipa principal, pois a academia e a formação do clube alemão são medianas quando comparadas com as do Barcelona. Guardiola tinha uma extensão do seu plantel na equipa b e na formação do clube (ou seria ao contrário?).

Veremos se Guardiola ganhará a Bundesliga, a Champions e mais do que atingir a glória, se sobretudo tem impacto no estilo de jogo do Bayern de Munique. Guardiola é conhecido também pela sua inteligência. Tomou contacto com outras realidades socioculturais enquanto jogador, e sabe seguramente, que o contexto não será o mesmo. De acordo com o filósofo, ensaísta e pedagogo espanhol José António Marina, não podemos esquecer que “somos o que somos, mais o conjunto de relações em que estamos incluídos” e que se deve respeitar, em todo o momento, “a integração com o meio”.

* Artigo publicado respeitando a norma ortográfica escolhida pelo autor

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